sábado, 19 de dezembro de 2009
A coragem da heroína
Como eu disse, os três tinham seus próprios problemas, mas o problema dela era o maior. Com apenas 14 anos, ela já bebia e fumava. E para piorar a situação, não encarava aquilo como um problema. Eu e meu amigo tentamos, através de conversas, convencê-la de que aquilo não era bom. Ela ainda era muito nova para se enveredar pelo caminho incerto dos vícios. Mas ela... ela não ouvia. Podia até concordar (internamente) que suas atitudes estavam erradas, mas nunca deu o braço a torcer.
O tempo passou, e por alguma razão, nós três nos separamos, tão rápido quanto havíamos nos unido. Só que eu sempre me lembrava com carinho daqueles dois amigos tão complicados e encantadores que eu tive.
Meses mais tarde, nos reencontramos. Foi o dia do meu maior choque: ela estava usando drogas. Não é suposição. Eu vi.
Fiquei abalada. Onde é que eu estava, enquanto ela caia num vício ainda maior? Por que é que eu não me esforcei para impedir as bobagens cometidas por aquela garota tão doce ? Eu me culpava pelos problemas que sabia que ela enfrentaria... E, o pior, me culpava por não ter feito bem meu papel de amiga. Conversei com uma hebiatra, médica especializada em adolescentes... mas hoje já não lembro os conselhos que ela me deu.
Algumas vezes, tentei me aproximar dela pela internet. Puxava assunto no msn ou deixava um scrap no orkut dela. Mas não adiantava. Ficávamos na promessa de reencontrar, de combinar alguma coisa com o nosso outro amigo... Só palavras, nunca aconteceu.
Uma vez eu a vi no ônibus, no caminho pra casa. Não tive coragem de dizer um simples "oi". Já fazia muito tempo que não conversávamos; eu achava que ela nem me reconheceria (como diz minha psicóloga, eu tenho a crença que as pessoas se esquecem de mim). E fui deixando as oportunidades passar, sempre me culpando pela minha falta de iniciativa para ajudá-la.
Ontem, no caminho para casa, meu pai fez uma piada sobre uma pessoa estranha que atravessava a rua. Virei para ver quem era. Era ela. Eu não consegui salvar essa minha amiga do destino que ela traçou para si própria. Eu nem tentei. Onde é que foi parar a coragem que sempre achei que tive? E as lições que eu vi assistindo Xena? Ah... como eu queria ter a coragem daquela heroína que tanto admiro. Mas eu não tenho. Tanta coisa que eu poderia ter feito para evitar que as coisas chegassem a esse ponto, mas eu não fiz nada. Fiquei com as minhas preces e a minha esperança de que, um dia, ela acordaria e perceberia as besteiras que estava fazendo.
Que raiva eu sinto de mim.
Um outro amigo meu, que não é aquele do início desse texto, também começou a fazer escolhas erradas. No caso dele, eu tomei iniciativa, falei, orientei, briguei, ignorei, consolei... Dei todo o meu apoio para que ele tivesse forças suficientes para não cair. Algumas vezes ele tem seus deslizes, mas acredito que ele está se saindo bem. Com a minha ajuda.
Isso me alivia um pouco da culpa de não ter ajudado minha amiga, mas não alivia totalmente. E eu nem sei se um dia conseguirei me livrar da culpa. Já não há mais nada ao meu alcance para ajudá-la. Perdemos todo o contato.
Mas decidi que nunca mais vou ficar sem fazer nada pelos meus amigos. Afinal, era isso que eu tinha para aprender assistindo Xena: lutar pelas amizades, por mais complicadas que elas sejam. E nunca mais sucumbir sem coragem.
domingo, 27 de setembro de 2009
Quando Xena e Gabrielle me salvaram
Era um sábado. Dia 20 de agosto de 2005. Eu estava esperando muito para que aquele dia chegasse. Afinal, era quando aconteceria a “Corrida Rústica Audley Gammon”, da qual eu participaria. E eu corri e venci (tá, nem foi uma vitória tão emocionante assim: além de mim, só havia mais duas meninas na minha categoria). E eu esperava que as minhas amigas ficassem felizes pela minha vitória. Que elas comentassem, comemorassem, achassem demais. Mas nada disso aconteceu. Elas só queriam falar de Patrick, o menino por quem Laís (uma das amigas) era apaixonada.
Fiquei enfurecida. Elas estavam me deixando de lado por um garoto. Laís, Andréa e Carla preferiam ficar falando sobre um garoto que elas mal conheciam ao invés de me encher de elogios por ter vencido uma corrida de 11km. 11 km subindo e descendo morros e a minha recompensa era ouvir que Patrick era lindo, que ele fazia isso e aquilo, e que a mãe do Patrick era não sei o que...
Mas não foi a primeira vez que eu me vi deixada de lado por minhas amigas. As conversas que elas tinham eram sempre sobre assuntos que eu não tinha muito interesse – como o Coldplay. Mas todas nós amávamos Harry Potter. Por que não conversávamos sobre o bruxinho inglês?
A raiva me dominou completamente e eu, sem nenhum aviso, parei de conversar com elas. Não queria mais ter amigas. Quem quer amigas que só sabem falar, sem nunca parar para ouvir as coisas que você diz? Fui me isolando, criando uma casca impenetrável de solidão. E era assim que as coisas tinham que ficar. Eu não queria mais amizades se isso fosse me fazer sofrer. E amizade faz sofrer! Então, nunca mais eu teria amigos.
Eu estava muito melhor sozinha. Agora eu decidia os assuntos que povoariam a minha cabeça durante o intervalo. Eu escolhia onde me sentaria, os lugares aonde ia... Sim, era muito melhor.
Grande ilusão. Eu me transformei em uma garota sombria, calada, revoltada. E a coisa que eu mais desejava era ter uma amiga! Sentia-me péssima com a minha situação, e sabia que todo o meu sofrimento era minha culpa. Mas eu não pediria desculpas para as minhas ex-amigas. Se elas antes tivessem prestado atenção em mim, se tivessem me ouvido e feito eu me sentir uma amiga especial, eu jamais teria brigado com elas. Na verdade, eu era orgulhosa demais para voltar atrás e tentar me entender com elas.
Durante quase 7 meses eu fiquei presa nessas dores. Sofria calada e não fazia nada para me curar. Mas em março de 2006, tive um reencontro que começou a me recuperar. A heroína dos domingos de manhã da minha infância estava de volta, e com uma companhia que eu não recordava. Era Xena. E Gabrielle, é claro. No primeiro momento, eu fui absorvida pela série. As lutas, a mitologia, a História... “A força, a paixão, o perigo”... E à medida que eu ia me envolvendo mais com a série, mais eu percebia que a grande mensagem da série era justamente a coisa que mais faltava na minha vida: amizade.
Eu olhava a amizade de Xena e Gabrielle (na época eu recusava enxergar o subtexto), e sentia um aperto no coração. A cumplicidade das duas, o carinho, a coragem de uma defender a outra... Percebi que aquilo era o que faltava na minha vida naquele momento. E se Xena, que havia sido a destruidora de nações, podia conseguir uma amizade tão bonita, tão forte, por que é que eu, uma garota sem grandes pecados do passado não podia ter isso também?
Xena e Gabrielle sorriram para mim, e me deram força para enfrentar aquele desafio. Elas não podiam enfrentar meu passado por mim, eu sabia que era a minha vez de agir. Então fui atrás das amigas perdidas, as amigas que eu mesma me fiz perder. Estava disposta a me reconstruir, eu não podia continuar mais naquela solidão que me consumia.
E não é que depois de alguns momentos em que eu precisei me por à prova, eu acabei recuperando duas das três amigas que havia perdido? E o mais engraçado é que, uma delas – Andréa- também estava se tornando fã de Xena. Foi justamente o que possibilitou a nossa conversa. Então, de certa forma, Xena e Gabrielle estavam nessa batalha comigo, me dando o apoio que eu precisava para reconquistar aquela amizade.
Até hoje, Carla, Andréa e eu somos amigas. E isso é mais uma das coisas que eu devo a XWP. Fico pensando... se eu nunca tivesse colocado a tv na Record naquele 1º de março, quanto tempo mais eu esperaria para tentar me reconstruir? Acho que eu esperaria até “tarde demais”. Mas ainda assim, eu teria como me reconstruir. Porque é justamente disto que XWP se trata: de ser capaz de vencer os pecados do passado, não importa quão grandes eles sejam.
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Espero que tenham gostado da crônica.
Cris 'Barda' Penoni
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